Borges

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Hoje, 24 de agosto, é aniversário de uma das pessoas mais geniais que habitou esse mundo: Jorge Luis Borges. O homem que mesmo cego, na velhice, acreditava no universo como uma enorme Biblioteca completaria bem mais que um século e acho que já teria visto palavras demais. Borges é uma das minhas inspirações mais fortes, principalmente pelo passear entre os campos da ficção, poesia, lógica, enciclopédia, metafísica e tudo que bem lhe coubesse. Um desses homens admiráveis. Muitos achariam a vida dele uma perca tempo afinal passou boa parte dela se dedicando a ler, pensar e escrever. Algo que é tão dispensável em dias que o verbo viver – seja lá o que ele signifique – é a premissa básica. Também desconfio que o universo seja uma enorme biblioteca que nem todos leiam seus livros. Alguns apenas buscam determinados títulos, outros somente olham fascinados pelas lombadas tão variadas e há, obviamente, os que gastam tanto tempo dentro dela que mal sabem se localizar fora das enormes galerias. A minha ficção é moldada em conceitos borgianos. Nem sei se quero sair de dentro Dela.

El Titiritero de Banfield

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Um bonequeiro é um desses seres que brinca de ser outro. Je est un autre, a frase do Rimbaud ficou martelando na minha cabeça enquanto assistia o sensacional Sergio Mercurio no espetáculo El Titiritero de Banfield. Mercurio é um argentino que tem a alma desassossegada. Desde de muito jovem ele saiu à procura de um lugar no mundo e parece achar que todos os cantos da latinoamerica fazem jus a isso. O espetáculo dele é muito diferente de qualquer espetáculo de bonecos, e olhe que os nossos hermanos uruguaios são muito bons nisso também. Ele se mistura de tal forma com os personagens que a esquizofrenia parece ser algo normal, simples e cotidiano. Falo brincando de um distúrbio psíquico para dizer na verdade que Sergio Mercurio sofre mesmo é de ficção. Sabemos que isso é crônico. Mas bem, ele não se esconde em momento algum do espetáculo, dialoga intimamente com os personagens e inclusive na primeira parte da peça ele brinca com o boneco Bob sugerindo que sua mão é o que dá vida para o genial homem de espuma que veste um moletom de Bansfield. Ainda, a peça segue em mais dois atos pausados com um intervalo de Mercurio sentado na cadeira conversando com a plateia. Impossível não se sentir em casa e mesmo assim saber olhar para o personagem como um serzinho cheio de vida e único. Não sei ainda explicar o que vi, fazem só 2 horas. Foi lindo. Como se de fato a gente, que sofre de ficção crônica, pudesse transformar sempre em arte essas vidas que circulam o nosso dia a dia. Mercurio faz isso há 20 anos. Viaja a latinoamerica com seus filhos, feitos pelas suas próprias mãos e os apresentando para platéias. Lindo e instigante. Vou ali, colocar umas coisas na mochila e pedir se ele deixa eu o seguir em silêncio.

Notas sobre Leitura (1)

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Estou eu cá fazendo um texto sobre a Igreja do Livro Transformador para o interrogAção – mais a frente falarei sobre o projeto – e fiquei pensando sobre algo que vem martelando a minha cabeça há um bom tempo: o livro salva. Aí vem alguém e diz ¨lá vem você¨. É sério. É s-é-r-i-o.

Há muito tempo que venho buscando saídas, anotando em muitos papéis, ouvindo palestrantes apaixonados sobre o ato de ler. Se fôssemos fazer um passeio pelas teorias literárias sobre a recepção da leitura, teses de gente que se debruça há tanto tempo sob o assunto ainda não conseguiríamos definir o que acontece de fato com um leitor quando está imerso naquela ficção – leia-se qualquer gênero literário, incluindo poesia.

Eu gosto de duas ideias e que vou compartilhar nesse primeiro momento. Uma é a famosa frase de Rimbaud: Je est un autreeu sou outro. O que pode ser mais interessante do que emprestar a vida de outrem, ou ountrens, por um tempo. Quando leio determinado livro, eu estou ali, passo a pensar conforme a sociedade daqueles personagens e isso facilita muito a minha compreensão sobre o entorno daquela narrativa. E isso não importa que livro seja, um romance do século XVIII cheio de detalhes e frescuras adjetivas ou um romance nacional contemporâneo que em alguns casos pode ser formado somente de diálogos. Tudo que leio existe construção. Ponto. Eu sou o outro, uso a minha experiência em favor de alguém que nem conheço ma seria capaz de gastar inúmeras horas para compreende-lo. Parece doentio, mas não é.

A segunda ideia se refere a ideia do alemão Walter Benjamin na noção de narrativa e leitura como experiências propostas. Se não fossem nossas experiências prévias simplesmente não faria sentido ler. O mais bacana é pensar que mesmo que não tenhamos vivido na Inglaterra da chata da Jane Austen, ao lermos o chato Orgulho e Preconceito compreendemos muitos dos detalhes seja porque já vimos aquilo no cinema, na TV, em foto ou por qualquer tipo de conhecimento prévio. E com a leitura ir acrescentando mais e mais experiências, talvez não as exatamente vividas, mas a experiência imaginativa mesmo – e que muitas vezes pode ser tão tensa quanto a real.

Bem, não vai ser a última vez que escreverei isso por aqui, talvez isso desse um artigo, um livro, sei lá. Mas eu realmente gosto de pensar sobre essa experiência dentro do universo ficcional.

Je est un autre.

São Paulo S.A.

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São Paulo. Todos temos nossos lugares de fugas e afins. A cidade do caos funciona assim para mim. Me divirto e sou feliz intensamente nos poucos dias que fico lá, sempre é assim e é por isso que não moraria por nada na grande metrópole. É bom estar em casa, na casa que adotei nesses 7 meses e que já não sei viver longe. Mas, São Paulo é um daqueles lugares onde você passa a borbulhar de ideias e precisa coloca-las no papel, onde pessoas sorridentes e amigáveis andam do seu lado falando daquilo que você se sente confortável, lugar que a rua principal, com aquele bando de gente gritando visualmente que precisam ser algo, é o palco de para estrelinhas conhecidas em algumas tribos. Punks, indies, pseudos, escritores contemporânos, hipsters e os termos que nunca terminam. Sim, a cidade do caos. Muitas palavras para pouco mais de dois dias. Importante mesmo é a intensidade do sentir, deixo as palavras para aqueles que sabem fazer bom uso delas.



Dia 12 – Um livro que te absorvia tanto emocionalmente que você não conseguiu terminá-lo ou teve que deixá-lo um pouco de lado

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Mi,

Boa parte das vezes me culpo pelos atrasos que acontecem. Até porque quando faço/executo o objeto atrasado fico pensando ¨Poxa, não precisava disso¨. Mas enfim…

Uau. Ainda lerei Horror em Amytville já que o filme eu achei tão (…). Acho que lendo eu entendo o por que dele ser tão caótico. Aliás, literatura de horror/terror é algo que li muito pouco até hoje. Sempre me foquei nas mazelas humanas e histórias fantásticas, preciso rever isso! Antes fosse por medo, pânico e traumas. Mas acabo nunca ficando tão assustada, acabo ficando mais horrorizada com coisas sempre muito reais tipo o filme Eles, que de tão real deixa a gente meio que catatônico.

Bom, pela sinopse faz sentido tu ter parado de ler e ter dado um tempo, ainda mais pelos malditos hábitos noturnos. Isso aconteceu comigo com o mangá Uzumaki. Doentio, eu definiria. Aí vem aquilo das possibilidades da coisa acontecer nessa ficção aqui fora e ai…

O livro que mais me causou pausa por inúmeras questões, não somente as psicológicas, foi obviamente o Cem anos de solidão, do Gabriel García Marquez. Ok, nove em dez pessoas tiveram seus próprios surtos lendo esse livro mas além do habitual comentário, de que chega uma hora que você não sabe mais qual Aureliano está vivenciando determinada situação, existiu pra mim outros fatores de identificação.

Famílias – como todas – sempre me causam certos surtos literários. Um relato de 100 anos em torno de um família que vive um maldito círculo vicioso durante esse tempo não é dos textos mais fáceis de se engolir. Ainda, existe todo o lance linguístico utilizado pelo G.G. Marquez. Tu não respira e quando termina determinado capítulo recheado de fantasia – porém extrememante aplicada no real – há uma certa necessidade de ter uma pausa, uma adaptação. Levei cerca de dois meses para lê-lo e isso entre uma leitura e outra.

Qualquer ficção da literatura fantástica latinoamericana é mais do que uma obra com situações mitológicas acontecendo. É um retrato onírico da realidade e do histórico – não muito agradável – vivenciados em menos de um milênio. Na verdade, me admira bastante existirem escritores como Borges, GG. Marquez e outros, aqui na sulamérica, tendo uma visão tão peculiar do real. Enfim, outro assunto…

Ps: Nunca ali algo tão pretensioso quanto Joana a Contragosto do Mirisola. Tenho dito.

Sempre saudades!

Manu

Adaptação

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Adaptação. Talvez só mesmo a genialidade estranha de Charlie Kaufman pudesse inspirar seu amigo – tão bizarro quanto ele – Spike Jonze a fazer um filme com esse título.

A última década – ok ok, praticamente sempre foi assim, mas hoje parece estar mais na cara do que nunca – as adaptações têm sido a doença dos roteiristas, das produtoras ou o caralho que for. Saiu um livro legalzinho hoje, amanhã tem a maldita adaptação – ou tentativas frustradas de traduções intersemióticas – com atores dando vida à personagens que deveriam ser imagens da cabeça dos leitores. Ponto. Rabugice ou não.

Convenhamos, boa parte não funciona. Eu disse boa parte. Existem as boas sacadas como as oldies-versions do adorado Kubrick ou aquelas versões de livros tão desconhecidos que tu só lê depois de amar as versões do cinema (ver esse post e esse da Mi sobre o francês Porco Espinho).

Bem, mas voltando ao Kaufman. O que mais me atraiu no roteiro de Adaptação é justamente como é difícil um roteirista lidar com livros que muitas vezes não tem narrativa usável. E melhor, usar isso a seu favor criando uma ficção em torno disso. Jonze, o diretor, já fez isso de mesclar a realidade e a ficção que o cinema propõe em Quero ser John Malkovich, que é ainda usado como ponto de partida para esse.

A questão é como escrever sobre qualquer coisa ou pior, um livro já pronto? Como usar a vida real – que já beira à ficções de banca de jornal – em favor de um roteiro genial? O personagem do Kaufman (um Cage que dá saudades) é um típico desajeitado e gênio que – como qualquer ser que sente na frente de um papel real ou digital – não consegue usar uma história aparentemente pronta ao seu favor. Só mergulhando na ficcional realidade mesmo.

Não sei, mas como cinéfila e pesquisadora de literatura, vejo muito cinema na literatura mas isso não significa que isso deva se tornar imagem, sabe?

Dia 11 – O livro que fez com que você se apaixonasse pela leitura

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Mi,

Nem falo mais que minha vida anda um caos. Já virou uma desculpa horrorosa. Mas bem, aqui estou eu, mesmo que demoremos um ano todo para completar as 30 cartas. O que mais me move nisso tudo é justamente nunca termos parado para conversar sobre esses livros que marcaram determinada situação ou época. Claro, já tivemos nossas fases e compartilhamos elas sempre mas é muito mais divertido ter que decidir que livro usar como exemplo, algo extremamente dolorido para duas pessoas tão impacientes e indecisas!

Bom, se apaixonar pela leitura é algo muito intimo, convenhamos. Cada fase da minha vida eu encontrei livros que me moveram a outros lugares ou ainda me manteram firme em alguma decisão. Como diria o nosso querido Luiz Ruffato: Deveria existir a igreja do livro transformador! Mas isso é um outro assunto para devanear!

Inúmeros livros da Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Coleção Vagalume e afins foram mais do que fundamentais para que eu continuasse ávida nas minhas leituras. Acho que na infância é mais fácil ler para manter aquela realidade ficcional e onírica infantil mas acho que salvadores são os livros que na adolescência mantém o nosso foco, facilmente perdido nessa idade, convenhamos. Na verdade, no meu caso, foi um conto lido. O Alienista do Machado de Assis. Ok, na escola de 10 em 10 criaturinhas odiavam o Machadão, afinal éramos obrigados a entender o que o professor queria sobre a a vida da Capitu, Bentinho e Escobar. Ai de quem discordasse! Mas, o Alienista caiu nas minhas mãos de uma forma muito aleatória, justamente vendo um pedacinho da adaptação com o Marco Nanini nos fins dos anos 90. Não deu outra, achei a história do Simão Bacamarte tão bizarra que eu precisava muito saber como que ele tinha surtado e etc. Chego na biblioteca e descubro: Machado de Assis havia escrito o conto. Pronto e agora? Eu tive que me render ao Machadão!

Machado, para mim hoje, é uma dessas figuras mal representadas pelos professores de Literatura Brasil afora. Muito escritor contemporâneo não teria essa leva irônica e filha-da-puta se não fosse o pequeno casmurro, né? E O Alienista para mim é a base do humor negro e crítica social. Todos somos loucos e acabamos julgando outros como se fossem pior que a gente…Bem, mais tarde comprei essa edição que saiu pela LP&M e gosto demais!

E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila, ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua. (…)

Saudades, sempre!

Ps: Vou começar a ler o Mirisola! Finalmente! Logo chega mais livro pra ti!

Manu

Fim de Semana (2)

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Um livro: Pergunte ao Pó – John Fante (finalmente)

Um documentário: Amor? – 2011, João Jardim, Brasil

Música: Tool e A Perfect Circle

Um doce: Sorvete de creme com doce de leite derretido + tubetes + Ovomaltine

Momento: 1-Procrastinação de boa parte do domingo = mais inspiração. 2- Café em shopping curitibano com senhores ao lado em idade avançada contando suas aventuras sexuais.

 

Dia 10 – O primeiro romance que você lembra de ter lido

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Mi,

Me perdoe pelo atraso das trocas. Você bem sabe que minha vida é um caos e talvez seja mea culpa. Eu instauro o caos imediatista na minha vida para não perecer do tédio cotidiano. Mas bem, vamos lá. Nem é novidade ver essa capa clássica da Christiane F.! Que inclusive tenho orgulho de ter ganho ele de um amigo, quantas vezes vimos o filme! O Bowie cantando Heroes!! Engraçado isso, eu me considero o ser mais careta na faixa dos 25 anos. Bebo pouco e exagero no café, sou avessa aos eventos meramente sociais (leia-se bares e afins) e sou fanzona de um filminho de sábado à noite. E bem, adoro os marginais, me empolguei com todos os junkies do cinema & literatura. Alguém da psicanálise há de explicar!

Mas bem, nem vem ao caso!

Fiquei matutando aqui de como decidir qual foi o primeiro romance que li de verdade. Resolvi limitar o tempo e criar minhas regras. Optei pelo primeiro livro que li na primeira semana da graduação de Letras. Toda eufórica com as aulas de Literatura e extremamente apaixonada por Cinema – e ainda havia começado a colecionar os filmes do Kubrick – fui até a biblioteca pegar um clássico. Saí de lá com a Lolita do Vladimir Nabokov. Pensa em todas as pré-concepções que eu tinha do livro, afinal o termo Lolita remete a tudo, menos na real história, né?

Simplesmente adorei. A dualidade da própria Dolores era o que me irritava e me fazia não deixar de ler até o final, eu necessitava de um fim merecedor a senhorita ruivinha & malévola. Claro, sempre acreditei no fato de uma mulher ser extremamente maliciosa até não ter o que merece (opa, alguém vai me acusar de algo) e foi o que aconteceu com ela. Nunca entendi muito como culpavam Humbert de pedofilia. Convenhamos, era um frustrado e isso ficou claro logo no primeiro capítulo e a monstrinha era mesmo a pirralha de 15 anos, imagino que caótico acusar uma ¨criança¨ de perversão!

Li o livro até porque eu estava numa curiosidade infinita para ver os filmes. E pasme, eu não prefiro a versão do Kubrick. A versão do Adrian Lyne ficou muito provocativa, com detalhes mais malévolos. Claro, isso sem analisar todo o momento histórico que o Kubrick se apropriou na sua versão. E enfim, Lolita foi o primeiro livro que li no curso de Letras e creio que acabaria sendo uma porta de entrada para muitas fixações literárias em patologias. Mas isso é um outro assunto, certo?

em junho, conversaremos pessoalmente. Ê São Paulo!

Ps: Recebi seu pacote! Estou doida pra ler o Mirisola e o texto do Buk sobre o Fante. Logo te mando mais!

Saudades!

Manu

Dia 09 – Um livro que você leu mais de uma vez

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Mi,

As coincidências são bizarras mesmo, passe ano e venha ano a gente não se acostuma com isso. Bandini é um anti-herói sem tamanho, compreendo o caos do Buk ao ler Pergunte ao Pó. Comentarei mais posteriormente com toda certeza!

Escolher um livro que eu tenha lido mais de uma vez chega ser maldade. Acabo sempre dividindo os livros em grupos (sim, metódica) e sempre tem aqueles que mais ou menos dia eu vou abrir só pra dar aquela suspirada básica e um silencioso ¨obrigado¨. Poderia citar inúmero como a obra inteira do Álvaro de Campos, o Eles Eram Muitos Cavalos, as Clarices, Hilda Hilst. Mas ok, escolherei só um. O Roubo do Silêncio de Marcos Siscar. Poesia? Prosa? Prosa Poética? Esse livro do Siscar é um desabafo, um desencontro, é um tudo ao mesmo tempo. Como se ele chegasse e pedisse: Vamos desabafar?

Essa obra foi a primeira que li desse cara que inacreditavelmente é professor acadêmico. Pois é, milagres existem. Dá uma olhada por quais motivos eu surtei:

Galinhas são mortas a pauladas, pessoas são mortas por engano. A vizinhança está em baixa, o turismo está em alta. A timidez e o eufemismo estão em baixa, sangue e perfume estão em alta. A sensação só pode ser escrita a chibata, e por isso sobra fígado, muito fígado. Eu, se pudesse, matava a causa secreta, gritava enfurecido, abria-lhe o ventre, roía a cara contra o chão, queimava, esquartejava, pendurava como ovelha abatida. Não há causa que valha uma vida. Mas ainda seria pouco. Se pudesse, expiava a velha culpa e abria com o dedo a ferida do ressentimento. O ressentimento chega altivo, feito coruja ruiva, mas não demora para perder as penas, pestilento. Não há remendo que lhe baste, pois ele sobrevive ao próprio enterro. É diferente do perdão ou da vingança, que entretêm a circulação do sentimento. O ressentimento acumula perdas, desconfia da vida, e nada coloca no lugar do que retira. O ressentimento mata aos poucos, por envenenamento. Para suportar esse refluxo, a culpa do outro se transforma em causa própria, a fraqueza humana em razão moral. Perdão, mas eu matava. (Sentimento de Violência, Marcos Siscar)

E aí? Olha que esse é o mais pontuado dos textos. Normalmente ele faz uso daquela narrativa corrida e caótica sabe? querodizertudoaomestempo. Não sobra oxigênio e precisa? Precisamos respirar mesmo quando lemos isso?

Meu sentimentos é de manutenção, uma espécie de feedback do caos interno. Acho que a literatura é muito disso, né? Mantenedora de algo bem interno, dos personagens de nossas vidas. Afinal, tudo é ficção, certo?

Saudades de Caos, de Você&Caos

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